Para curar um domingo
vazio e sem graça como tantos outros, aceitei o convite de um amigo para ver
uma peça em seu ultimo dia de apresentação de uma curtíssima temporada de final
de semana. Verifiquei os atores principais de
Azul Resplendor, e logo me animei a ir conferir Eva Wilma, uma das
mais soberbas atrizes brasileiras no palco. Tive inúmeras surpresas nesta noite
de domingo, que possivelmente, como já dito, tantos outros, acabaria apenas com
o episódio inédito de uma série que acompanho na preguiça pós-fantástico.
Azul resplendor é uma
homenagem ao teatro, eu sou fã de metalinguagens, adoro quando a arte fala
sobre si mesma, o autor Eduardo Adrianzén, premiadíssimo na cena hispânica,
discorre sobre a verdade nua e crua do camarim das celebridades ocas,
musculosos, vaidosas e claro, daqueles que amam estar no palco, com personagens
tão caricatos quanto aqueles que acompanhamos no cotidiano pelas revistas e
sites de fofoca.
No drama, Tito Tápia
(Renato Borghi) é um ex-ator que nunca conseguiu um papel de destaque,
considerado ruim pelos colegas de profissão, sua inexpressividade o levou a
desistir do teatro, mesmo amando-o mais que a si mesmo, para dedicar-se a
cuidar da mãe doente, que ao falecer, deixou uma herança significativa,
encoranjando-o a ir em busca de um antigo amor, Blanca Estela Ramírez, uma
grande estrela de seu tempo, agora aposentada. Tito convence a decadente Blanca
Estela a unir-se a ele no projeto de sua autoria, onde faz homenagem as
mulheres de sua vida: Blanca, sua mãe e avó já falecidas.

As entranhas do teatro
são apresentadas em cada personagem que surge aos poucos em cena, da decepção
de Blanca que vive seus últimos dias tentando conviver com sua própria decadência
que chegou junto a velhice, de Tito Tápia que não aproveitou a vida e tão pouco
dedicou-se mais aos palcos, ao avassalador diretor Antônio Balaguer, consagrado
arrogante que vive o ápice de seu sucesso, junto a sua assistente, Glória
Campos, personagem traumatizada por viver as sombras do famoso diretor e para
encerrar com maestria os caricatos personagens; a bela e vazia Luciana Castro,
atriz reconhecida por sua beleza e futilidade, e o musculoso Giancarlo Varoni,
ex-modelo que conseguiu alguns bicos como ator e fez sucesso devido seu
avantajado corpo físico.
Azul resplendor é uma linda
homenagem a vida, aos palcos, a histórias contadas em cada peça de teatro, ao
encanto que é viver e sonhar junto a personagem que guardamos na memória. Mesmo
com doses altas de ironias, por vezes um humor escrachado e claro, o dramalhão
que coça os olhos, cada ato é
apresentado com delicadeza e diálogos ágeis, deixando bem claro que a vida imita a arte,
que o tempo passa, que a vida segue seu rumo, e que como o fogo, ao morrer, ele
libera uma pequena faísca azul, e esse azul é o seu resplendor.