CINEMA NOVA: INFLUÊNCIAS DO NEO-REALISMO

15 junho 2012

O cinema novo surgiu em um tempo que se exigia grandes mudanças no cenário cinematográfico nacional. Os grandes estúdios existentes que entraram em falência no início dos anos 50, já tinham esgotado a ideia de se criar grandes produções, com orçamentos exagerados e atores de grandes portes, era um cinema de alto valor que se deixou afundar diante das imensas impossibilidades de continuidade. Nesta situação, a renovação se deu nas mesmas circunstâncias que outros países iberos americanos como Portugal, Argentina e Cuba atravessavam artisticamente em seu meio audiovisual.




A Guerra que tinha acabado recentemente havia deixado uma das formas mais cruas de se fazer cinema na Itália. Cineastas inspirados em contar o sentimento real da sociedade que sobrevivera aos tempos de canhões de guerra e munições vazias pelo chão em um cenário de ruínas estavam colocando nas telonas todo esse sofrimento. O Brasil, e outros países perceberam que esse era o cinema real. O Neorrealismo inspirava um dos maiores movimentos artístico do nosso país.

O Brasil não havia sido afetado tão fortemente pela guerra, mais o que não nos faltava era a realidade a ser apresentada nos nossos cinemas. O Sertão com as suas demoradas secas, a difícil vida dos pescadores no litoral, a escassez de condições de vida nos morros cariocas e etc. O Brasil era um país subdesenvolvido com inúmeras misérias no seu dia-a-dia. Essa era a realidade que seria apresentada nos filmes que estavam por vir.

O I Congresso Paulista de Cinema Brasileiro e o I Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, acontecidos durante o ano de 1952. Nos quais os cineastas aproveitaram as oportunidades para lançar as ideias para o novo formato de filme, que se baseavam literalmente nas características estéticas e inovadoras do Neorrealismo Italiano e Nouvelle Vague Francesa, que também era um fruto do modo italiano pós-guerra. O primeiro filme do movimento foi Rio, 40° de Nelson Pereira dos Santos.

“Rio, 40 graus era um filme popular, mostrava o povo ao povo, suas ideias eram claras e sua linguagem simples dava uma visão do Distrito Federal. Sentia-se pela primeira vez no cinema brasileiro o desprezo pela retórica. O filme foi realizado com um orçamento mínimo e ambientado em cenários naturais: o Maracanã, o Corcovado, as favelas, as praças da cidade, povoada de malandros, soldadinhos, favelados, pivetes e deputados.” Carlos Roberto de Souza.

Com a explosão cultural do filme de Nelson Pereira, vários cineastas do eixo SP-RIO-BAHIA, perceberam que o modelo podia projetar mais frutos de qualidade, diferentes das caríssimas produções da já antiga Vera Cruz ou as decadentes obras questionáveis da pornochachada.
Os filmes começaram a aparecer e a realidade brasileira estava sendo mostrada em sua forma mais significativa. Os diretores já se consagravam pela nova forma de fazer cinema, e quem o fazia uma vez, repetia o sucesso. Foi o que aconteceu em 1963, quando o Nelson Pereira estreou o longa Vidas Secas, drama baseado na obra de mesmo nome do escritor Graciliano Ramos. Este é o filme que mais demonstra as características Neorrealistas do período, as influências estão por todas as cenas, tanto esteticamente quanto tecnicamente.

Vidas Secas conta as tentativas de sobrevivência de toda uma família no sertão nordestino. Fabiano, sua esposa sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra baleia iniciam o filme em uma caminhada no meio árido e seco, com um sol escaldante e com pouca água e farinha como alimento. A Tragédia nos filmes italianos tão representados pelo caos deixado pela guerra, neste filme ela é retratada na personificação da seca, que agride todo um povo tornando-os retirantes pelas estradas de poeira.



O Papel firme da mulher cheia de virtude e força, assim como retratado em Maria Ricci de Ladrões de Bicicleta e em Pina de Roma, Cidade Aberta, é tratado com toda maestria em Sinhá Vitória que com uma força descomunal de sobrevivência é à base de toda a família, suando e calejando sua mão junto ao esposo na busca de um local melhor para se viver. Assim como as crianças também são retratadas fielmente aos clássicos neorrealistas, os dois garotos no meio da falta de tudo, perambulam ao redor de si em busca de um contentamento que parece não existir.

A Família se estrutura mais devido ao maremoto de desgraças que está inserida volta ao ponto zero, iniciando novamente sua longa caminhada em busca de abrigo. Novamente vemos a influência do neorrealismo, não existe final feliz, nem na vida real e nem nos filmes do início do cinema novo brasileiro.

A linguagem abordada nos filmes tinham características tão comuns que agradavam de primeira, assim como em Rio, 40 graus, com as histórias contadas dos garotos vendedores de amendoim, do povo do morro, dos soldados do calçadão de Ipanema. Também, encontramos um linguajar próprio, beirando quase em sua totalidade o estilo documentário o filme Barravento de Glauber Rocha.

De 1962, Barravento já introduz o espectador ao mundo neorrealista, quando em sua abertura já é comunicado que alguns dos participantes daquele filme são os moradores da vila de pesca e o termo Barravento é explicado. O filme é sobre o retorno do ex-pescador Firmino à vila, de negro sofredor a beira do mar, ele volta bem vestido e aparentemente bem de vida. Idealizando que na cidade as pessoas tem mais sorte, o que no corre do filme percebemos que na verdade, Firmino tornou-se um malandro, fugitivo da polícia e consequentemente, apenas mais uma vítima do sistema.

A cultura baiana é colocada no filme em estilo documental, longas sequências são exibidas como a dança dos moradores, que em uma única roda de dança, homens e mulheres se indicam para apresentação de dança ao som de tambores. Iemanjá e o candomblé representam a religiosidade, sendo talvez o único sentimento emotivo existente no grupo de moradores. A Venda de peixes não dá os resultados esperados, a divisão dos lucros é um percentual mínimo para os pescadores, o caos se propaga por todo o litoral.

Barravento lembra muito La Terra Treme, filme do cineasta neorrealista Luchino Visconti, desde o início quando Luchino também comunica aos espectadores que os participantes daquele filma são pescadores da praia de Sicília. 

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